Marciano
Lopes
(...)
todo prazer e todo sofrimento possuem uma espécie de cravo com o
qual pregam a alma ao corpo, fazendo, assim, com que ela se torne
material e passe a julgar a verdade das coisas conforme as
indicações do corpo. (PLATÃO, 1987, p. 89 -
Fédon)
A variedade de
concepções possíveis sobre o Amor já é encontrável em um texto
clássico sobre o asunto em nossa cultura ocidental e latina: O
banquete, certamente o mais belo dos diálogos platônicos
juntamente com o Fédon, texto em que Platão ensina o
caminho socrático para o conhecimento e que é essencial para a
compreensão do primeiro.
Em O
banquete, filósofos e poetas reunidos em um simpósio discutem
sobre a questão amparados - e inspirados - por deliciosas frutas e
vinhos, como era de costume. Dentre os discursos, convém
lembrar-nos daqueles proferidos por Fedro, Pausânias, Aristófanes
e, é claro, Aristóteles. Em comum a eles, está a compreensão do
Amor como necessário à civilização, seja por estabelecer laços
entre os indivíduos (desde os carnais até os de admiração e
companheirismo), seja por levar à contemplação e ao desejo de tudo
que é Bom e Belo. Ainda em comum outro aspecto importante - e
decorrente: há graus de Amor, encontrando-se no pólo inferior o
Amor carnal (pelos corpos) e, no outro, o Amor entre os espíritos,
Amor este que não se fixa nas aparências, na matéria imperfeita e
mutável.
O primeiro a falar,
Fedro, afirma que o primeiro deus a surgir após o
Caos foi o Amor e que somente por ele pode um ser dar sua vida por
outro, razão pela qual considera este sentimento como sendo uma
força civilizatória sem a qual não é possível "nem cidade nem
indivíduo produzir grandes e belas obras" (PLATÃO, 1987, p.
13).
Pausânias, que segue discursando, considera
que não há um só Amor, mas dois: um que é celestial, outro que é
popular. O celestial tem sua origem na deusa Urânia, que "não tem
mãe e é filha de Urano" (Idem, p. 15); o popular tem sua origem em
Pandêmia, filha de Zeus e de Dione. Ao traçar esta diferença,
Pausânias explica a razão do homossexualismo, comum na Grécia
Antiga, mais especialmente em Lacedemônia:
(...) o Amor de Afrodite Pandêmia é relmente popular e faz o
que lhe ocorre; é a ele que os homens vulgares amam. E amam tais
pessoa, primeiramente não menos as mulheres que os jovens, e depois
o que neles amam é mais o corpo que a alma (...). Trata-se
com efeito do amor proveniente da deusa que é mais jovem que a
outra e que em sua geração participa da fêmea e do macho. O outro
porém é o da Urânia, que primeiramente não participa da fêmea mas
só do macho - e é este o amor aos jovens (PLATÃO, 1987, p.
15)
Para Pausânias, no
amor dirigido aos jovens, o mais velho o faz de forma legítima na
medida em que está educando o mais jovem, que, em contrapartida,
deve aquiescer ao amante, servindo-lhe em vista da virtude. E
somente este amor será belo "e de muito valor para a cidade e os
cidadãos, porque muito esforço ele obriga a fazer pela virtude
tanto ao próprio amante como ao amado" (PLATÃO, 1987, p.
18).
Aristófanes, que não centra seu discurso nas
virtudes do Amor, mas busca esclarecer sua natureza e vicissitudes,
lembra que a Terra era habitada por gigantes que tinham um corpo
duplicado com relação ao que possuímos hoje:
(...)
inteiriça era a forma de cada homem, com o dorso redondo, os
flancos em círculo; quatro mãos ele tinha, e as pernas o mesmo
tanto de mãos, dois rostos sobre um pescoço torneado, semelhantes
em tudo; mas a cabeça sobe os dois rostos opostos um ao outro era
uma só, e quatro orelhas, dois sexos, e tudo o mais como desses
exemplos se poderia supor. (PLATÃO, 1987, p. 22)
As
vissicitudes surgem quando estes gigantes são divididos ao meio por
Zeus devido ao fato de dois deles, Efialtes e Etes, tentarem
investir contra os deuses para destroná-los. O resultado deste
castigo é que, depois de serem seccionados e terem seus sexos
mudados para a frente do corpo de modo a se satisfazerem (antes
disso geravam e reproduziam na terra), cada parte busca encontrar a
outra que foi perdida. Como os gêneros destes gigantes eram três -
masculino, feminino e andrógino - explica-se novamente a
homossexualidade.
(...) todos os
homens que são um corte do tipo comum, o que então se chamava
andrógino, gostam de mulheres (...) Todas as mulheres que são o
corte de uma mulher não dirigem muita sua atenção aos homens, mas
antes estão voltadas para as mulheres e as amiguinhas provêm deste
tipo. E todos os que são corte de um macho perseguem o macho (...)
Dizem alguns, é verdade, que eles são despudorados, mas estão
mentindo; pois não é por despudor que fazem isso, mas por audácia,
coragem e masculinidade, porque acolhem o que lhes é semelhante.
Uma prova disto é que, uma vez amadurecidos, são os únicos que
chegam a ser homens para a política. (PLATÃO, 1987, p.
24)
Embora Aristófanes
satirize os homossesuais na sua identificação aos políticos, na
sequência não deixa de liricamente elogiar o amor espiritual, seja
entre quem for, ao afirmar que "os que continuam um com o outro
pela vida afora são estes, os quais nem saberia dizer o que querem
que lhes venha da parte de um ao outro. A ninguém com efeito
pareceria que se trata de união sexual" (PLATÃO, 1987, p. 24-25).
Vale a pena transcrever a passagem que segue, apesar de longa, por
sua beleza:
Se diante
deles, deitados no mesmo leito, surgisse Hefesto e com seus
instrumentos lhes perguntasse: Que é que quereis, ó homens, ter um
do outro?, e se, diante do seu embaraço, de novo lhes perguntasse:
Porventura é isso que desejais, ficardes no mesmo lugar o mais
possível um para o outro, de modo que nem de noite nem de dia vos
separeis um do outro? Pois se é issso que desejais, quero
fundir-vos e forjar-vos numa mesma pessoa, de modo que de dois vos
tornei um só e, enquanto viverdes, como uma só pessoa, possais
viver ambos em comum, e depois que morrerdes, lá no Hades, em vez
de dois ser um só, mortos os dois numa morte comum (...). Depois de
ouvir essas palavras, sabemos que nem um só diria que não, ou
demonstraria querer outra coisa, mas simplesmente pensaria ter
ouvido o que há muito estava desejando, sim, unir-se e confundir-se
com o amado e de dois ficarem um só. O motivo disso é que nossas
antiga natureza era assim e nós éramos um todo; é portanto ao
desejo e procura do todo que se dá o nome de amor. (PLATÃO, 1987,
p. 25)
Por fim,
depois da fala do sofista Agatão, que em tudo elogia o Amor, temos
a explanação de Sócrates que, através do
raciocínio dialético e da alegoria, desconstrói o discurso do
sofista. Seu raciocício segue a seguinte lógica: o Amor existe para
aquilo que não possui, pois senão não o desejaria. Em outras
palavras: o Amor só pode desejar aquilo que não tem, caso contrário
não seria necessário desejar esta coisa. Aceito este raciocínio,
conduz Agatão - os debatedores e demais ouvintes - a concluir que o
Amor é carece do que é belo e bom, posto que deseja a estas coisas.
Por tal razão, o Amor não é belo nem rico, mas pobre e carente.
Para ilustrar esta ideia, narra o mito que afirma ter ouvido
de uma sacerdotisa chamada Diotima e que apresenta o Amor como
filho do deus Recurso e da mortal Pobreza, tendo sido gerado no dia
de nascimento de Afrodite. Por assim ter ocorrido,
conclui:
Eis porque
ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu
natalício, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque
também Afrodite é bela. E por ser filho de Recurso e da
Pobreza foi esta a condição em que ele ficou. Primeiramente
ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a
maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por
terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos
caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a
precisão. Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e
bom, e corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a
tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos (...) nem
imortal é a sua natureza nem mortal, e no mesmo dia ora ele germina
e vive, quando enriquece; ora morre e de novo ressuscita, graças à
natureza do pai (PLATÃO, 1987, p. 35).
Como se vê, a
natureza do Amor é contraditória,
senão paradoxal. Não sendo imortal, sua natureza
mortal busca a imortalidade. Ainda mais que em nossa realidade
feita de simulacros não conhecemos a Verdade e muito menos o Belo,
só existentes em sua plenitude no mundo da Ideias, mundo onde se
encontram as essências imutáveis - porém inalcançáveis aos
sentidos humanos. Por tal razão, o Amor não pode se contentar
com a satisfação material e com a contemplação dos corpos, por mais
belos que sejam, pois além de serem imperfeitos e se deteriorarem
com o passar do tempo, eles constituem uma prisão para a alma,
tornando-a incapaz de alcançar a luz da sabedoria. Daí o papel da
filosofia: ser o fim do processo de ascese (purificação) visando a
libertação da alma e a recordação das reminiscências, lembranças
das essências conhecidas pelos espíritos no princípio, antes de se
fixarem em algum corpo.
- Vou
dizer-te. É uma coisa bem conhecida dos amigos do saber, que sua
alma, quando foi tomada sob os cuidados da filosofia, se encontrava
completamente acorrentada a um corpo e como que colada a ele; que
o corpo constituía para a alma uma espécie de
prisão, através da qual ela devia forçosamente encarar as
realidades, ao invés de fazê-lo por seus próprios meios e através
de si mesma; que enfim, ela estava submersa numa ignorância
absoluta. E o que é maravilhoso nesta prisão, a
filosofia bem o percebeu, é que ela é obra do desejo, e
quem concorre para apertar ainda mais as suas cadeias é a própria
pessoa! (...) uma vez tomadas sob seus cuidados as almas
cujas condições são estas, a filosofia entra com doçura a
explicar-lhes as suas razões, a libertá-las, mostrando-lhes para
isso de quantas ilusões está inçado o estudo que é feito pelo
ouvido e pelos sentidos (PLATÃO, Fédon. 1987, p. 88 -
grifos de minha autoria).
Esta visão
platônica a respeito do Amor - no qual os desejos carnais devem ser
sublimados em última instância pelo pensamento - vai se consolidar
como hegemônica não apenas na arte clássica como em toda lírica
ocidental até quase os nossos dias. Na literatura neo-clássica,
encontramos inúmeros sonetos que são melhor compreendidos se lidos
levando-se tais questões em consideração. Um exemplo são os
famosos sonetos "Amor é fogo que arde e não se vê", de
Camões, e aquele em que Bocage glosa o mote "Morte, Juízo, inferno
e Paraíso" (para vê-los,
clique aqui). Neles encontramos os
topoi do Amor como sentimento
paradoxal e do corpo como prisão para a
alma; prisão absurdamente desejada pelo próprio amante,
que concorre para apertar ainda mais as suas próprias cadeias,
conforme podemos ler no excerto, acima, do Fédon, de
Platão.
Outros exemplos da
permanência do topos do Amor como sentimento paradoxal ao
longo dos séculos até a contemporaneidade (apesar de todos os
vanguardismos já ocorridos) são os poemas "Soneto
do maior amor", de Vinícius de Moraes, e as letras da
canções "Catavento e girassol" (Guinga e Aldir Blanc),
"Ela é dançarina"* (Chico Buarque) e
"O quereres", de Caetano Veloso - todos
estruturados com base nas figuras de pensamento da
antítese e do paradoxo. No caso
do soneto de Vinícius e da canção de Caetano, note-se ainda o uso
do decassílabo.
SONETO DO MAIOR AMOR
Vinícius de Moraes
Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.
E que só fica em paz se lhe
resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.
Louco amor meu, que quando toca,
fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer - e vive a esmo
Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.
O QUERERES
Caetano Veloso
Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alta, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és
Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor
Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim
Reparem que a
concepção platônica do Amor se encontra em perfeita sintonia com os
valores clássicos. A racionalidade e a busca do equilíbrio
que norteiam a estética clássica e neo-clássica decorrem da
visão platônica de mundo, em que a felicidade somente encontra
guarida na ascese, na purificação do espírito (que deve se
desvencilhar dos desejos e necessidades terrenas) através da
progressiva elevação do pensamento rumo ao mundo das Ideias. Por
tal razão é que o sujeito lírico do soneto abaixo, também de
Camões, busca transformar-se na mulher amada através de muito
pensar. Se isso conseguir, terá atingido um grau muito elevado de
Amor, grau em que terá compreendido que a beleza dela não está no
corpo e sim na alma - sendo esta alcançável somente pelo seu
pensamento, posto que os sentidos limitam a percepção da Ideia.
Entretanto, embora busque realizar o Amor em si mesmo ao imaginar
"esta linda e pura semideia", sua natureza contraditória permance
afligindo-o, pois este Amor "como a matéria simples busca a forma",
que já vimos ser imperfeita, mero simulacro segundo o
platonismo.
Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minh'alma
transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assi co'a alma minha se conforma,
está no pensamento como ideia:
o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.
(Soneto 20 - Luís de
Camões)
Esta compreensão do
Amor em que todo erotismo deve ser sublimado leva ao decoro
clássico com respeito à representação do feminino. Nada de palavras
chulas, referências às zonas erógenas do baixo corporal e,
principalmente, referências explícitas ao ato sexual. Para
tanto é necessário que o poeta saia fora do campo da poesia
socialmente reconhecida como nobre e se aventure pela poesia
popular, socialmente desqualificada, restrita aos lugares
socialmente proscritos, tais como as tabernas e prostíbulos. Isto
torna-se muito evidente quando estudamos a poesia de Gregório de
Matos. Para a representação do Amor elevado e da mulher branca,
utiliza o soneto e segue à risca os preceitos de decoro; para a
representação do Amor carnal, nos seus mais baixos instintos, assim
como das mulheres de cor, socialmente desqualificadas e
desfrutáveis (entre as quais se destacam as mulatas e negras),
utiliza a poesia de escárnio e maldizer, de tradição popular (sobre
esta questão,
veja neste blog).
Na poesia árcade, a
situação não é diversa. Nela, o Amor é tratado com leveza e
convencionalismo mesmo quando os sentimentos são por demais
passionais ou dolorosos, como é o caso do sentimento de luto - tão
comum nos sonetos de Cláudio Manuel da Costa,
nos rondós que compõem o livro Gláucia, de Silva
Alvarenga, assim como nas liras (caso da
Lira 77) em que Gonzaga escreveu
no exílio. Talvez o momento mais erótico e belo da nossa lírica
árcade se encontre - ironicamente - em um poema épico: O
Uraguai, de Basílio da Gama
(1741-1795). A passagem, para quem
conhece, é óbvia: a morte de Lindóia. Mas a razão para que tal
erotismo tenha se tornado aceitável no poema provavelmente é a
mesma que possibilitava a Gregório tratar o Amor em sua carnalidade
quando tratava da mulher de cor: Lindóia não é branca, mas índia,
um ser que, na época de escritura do poema, nem era ainda
reconhecido como tendo uma alma pela Igreja Católica -
encontrando-se, portanto, excluído da humanidade e da necessidade
de maior decoro em seu tratamento. Apesar de manter o decoro, o
erotismo está presente no nível simbólico das imagens,
destacando-se o fato de que ela morre picada por uma serpente,
figura que simboliza não somente o Mal, mas também o órgão fálico,
que aliás verte seu sémen (do grego: sperma
- "semente"), simbolizado pelo "lívido veneno". Ainda: o mesmo
caráter simbólico da serpente também está na flecha, que é
arremessada por seu irmão no intuito de matar a víbora.
Açouta o campo coa ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! No frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
(O Uruguai, Basílio da Gama)
Referência:
PLATÃO. Diálogos - O banquete, Fédon, Sofista,
Político. Tradução e notas de José Cavalcante de Souza et
alii. 4 ed. São Paulo: Nova Fronteira, 1987. (Coleção Os
pensadores)
* NOTA: Em "Ela é
dançarina", mais forte do que o motivo platônico do amor como
contradição é o aproveitamento da lenda do "feitiço
de Áquila".
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