Intertextualidade e alegoria: "Bom conselho" de Chico Buarque  (Exercícios) escrito em segunda 04 abril 2011 18:40

Ouça um bom conselho
que eu lhe dou de graça:
inútil dormir
que a dor não passa.

Espere sentado
ou você se cansa.
Está provado,
quem espera nunca alcança.

Venha, meu amigo.
Deixe esse regaço.
Brinque com meu fogo,
venha se queimar.

Faça como eu digo.
Faça como eu faço.
Aja duas vezes,
antes de pensar.

Corro atrás do tempo.
Vim de não sei onde.
Devagar é que
não se vai longe.

Eu semeio o vento
na minha cidade.
Vou pra rua
e bebo a tempestade.

(Bom conselho - Chico Buarque)

Exercício 1  - Paródia ou paráfrase?

 Na canção "Bom conselho", acima, Chico Buarque apropria-se de diversos ditados populares. Identifique-os abaixo e explique a maneira como ocorre a intertextualidade  discutindo se ela é da ordem da paráfrase ou da paródia. Para tanto, baseie-se no texto Paródia, paráfrase e Cia (São Paulo: Editora Ática, Série Princípios) de Affonso Romano de Sant'Anna.

1) Quem com ferro fere, com ferro será ferido.
2) É de pequenino que se torce o pepino.
3) Pau que nasce torto, morre torto.
4) Mais vale um pássaro na mão do que dois voando.
5) A pressa é a inimiga da perfeição.
6) Cavalo dado não se olha os dentes.
7) A ocasião faz o ladrão.
8) Quando um não quer, dois não brigam.
9)Antes calar que mal falar.
10) Quem semeia ventos colhe tempestade.
11) Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
12) Pense duas vezes antes de agir.
13) Casa de ferreiro, espeto de pau.
14) Quem brinca com fogo pode se queimar.
15)O seguro morreu de velho.
16) Cada macaco no seu galho.
17) Faça o que digo, mas não o que faço.
18) Filho de peixe, peixinho é.
19) É só dormir que a dor passa.
20) Nada como um dia depois do outro.
21) Não há rosas sem espinhos.
22) O barato sai caro.
23) Onde há fumaça, há fogo.
24) Pela boca morre o peixe.
25) Cão que ladra não morde.
26) Quem espera sempre alcança.
27) Devagar se vai longe.
28) Se conselho fosse bom não se dava, se vendia.

Exercício 2 - a sabedoria dos provérbios populares no "Bom conselho" de Chico Buarque: uma subversão do bom senso?

 a) Fundamentação do exercício:

Os ditados populares, assim como as fábulas e os apólogos,  geralmente transmitem uma moral, um ensinamento sobre a vida por meio da alegoria. São gêneros didáticos que têm por finalidade comum nos dar um "bom conselho" de forma agradável e inquestionável, pois fundamentam suas alegorias nos exemplos dados pelo mundo, especialmente pela natureza - que sabemos ser perfeita, visto ser uma criação divina.   

Na
alegoria - assim como na metáfora - se diz (ou se representa) uma coisa para significar outra. Disto decorre a ambiguidade do texto alegórico, que sempre tem mais de uma significação. Exemplo:

É de pequenino que se torce o pepino.

A palavra "pepino" no ditado acima tanto significa o fruto do pepineiro (que deve ser torcido quando pequeno, por estar ainda flexível) quanto a criança (e o seu "pipi"?!), que deve ser "torcida", ou seja, moldada em seu caráter - assim como o pepino é moldado em sua forma. Outro exemplo:

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.

"Água" e "Pedra" tanto podem ser lidas denotativamente, no sentido dito "literal", quanto no sentido conotativo (dito "figurado"). Neste caso, podemos considerá-las como metáforas. "Água mole" pode significar aquele que é fraco, inferior, menos poderoso - entre outras coisas - em oposição à "pedra dura" significando aquele que é forte, superior, poderoso - entre outras coisas. Tanto neste ditado como no anterior utiliza-se de um raciocício analógico, em que os elementos que compõe a metáfora são aproximados por alguma semelhança. A associação/articulação de metáforas e analogias compõe o todo da alegoria. No caso, a mensagem que o senso comum atribui ao ditado é mais ou menos o seguinte: "quem é persistente (embora fraco, ou menos poderoso) pode vercer as mais duras resistências aos seus objetivos e sonhos. Deve-se persistir sempre, jamais desistir, porque até a água, que é fraca, fura a rocha poderosa (a prova são as cavernas, que não deixam mentir)".

b) Exercício:

Considerando a ambiguidade/arbitrariedade do texto alegórico, discuta o(s) significado(s) possível(is) de cado dito/provérbio popular no contexto da canção "Bom conselho". Com base na análise feita, discuta se Chico Buarque subverte os ditados populares de tal modo que seu "bom conselho" termine por contrariar o bom "senso comum" de onde retira os argumentos (os ditados/provérbios populares).

Exercício 3 - "Bom conselho": jogo de Deus ou do Diabo?

 Em seu livro Paródia, paráfrase e Cia (Editora Ática, Série Princípios), Affonso Romano de Sant'Anna afirma que "a paráfrase faz o jogo do celestial, e a paródia faz o jogo do demoníaco", estando a primeira mais comprometida com a ideologia e a segunda com a contra-ideologia. Explique tais afirmações utilizando a análise e a interpretação da canção "Bom conselho" desenvolvida nos pontos anteriores, como exemplo.

 OBSERVAÇÃO:

Ditado popular
ou Provérbio é uma sentença de caráter prático e popular, que expressa em forma sucinta e não raramente figurativa, com ritmo,  metro, rima, aliterações e assonâncias, uma ideia ou pensamento que se pretende repleto de sabedoria.  rima, aliterações e assonâncias, uma ideia ou pensamento que se pretende repleto de sabedoria.

permalink

“Intertextualidade e Paráfrase: “Palmares & Palmeiras” nas saudades de Oswald e Cacaso.  (Exercícios) escrito em domingo 27 março 2011 11:56

 CANTO DE REGRESSO À PÁTRIA
Blog de poetasdobrasil : Literatura Brasileira: Poesia, “Intertextualidade e Paráfrase: “Palmares & Palmeiras” nas saudades de Oswald e Cacaso.
                                    Oswald de Andrade

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os pássaros daqui
Não cantam como os de lá

Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra

Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo

JOGOS FLORAIS
             
              
                                    Cacaso

Blog de poetasdobrasil : Literatura Brasileira: Poesia, “Intertextualidade e Paráfrase: “Palmares & Palmeiras” nas saudades de Oswald e Cacaso.
I

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

II

Minha terra tem palmares
memória cala-te já
Peço licença poética
Belém capital Pará

Bem, meus prezados senhores
dado o avanço da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com esses dois esses
que se escreve paçarinho?)

__________________________
Blog de poetasdobrasil : Literatura Brasileira: Poesia, “Intertextualidade e Paráfrase: “Palmares & Palmeiras” nas saudades de Oswald e Cacaso.Exercício - proposição: O poema "Jogos florais", de Cacaso, é uma paródia das canções do exílio de Gonçalves Dias e Casemiro de Abreu assim como o poema "Canto de regresso à pátria", de Oswald de Andrade. Entretanto, podemos considerar "Jogos florais" como apresentando uma relação de paráfrase com relação ao poema de Oswald segundo a perspectiva teórica apresentada por Affonso Romano de Sant'Anna em seu livro Paródia, paráfrase & Cia (São Paulo: Ática). Para constatar isto, observe:

a) Nos dois poemas encontramos um sujeito lírico irônico com respeito à idealização do Brasil. O ufanismo romântico é corroído pelo humor no poema de Oswald através do exagero caricatural de suas riquezas naturais (incluindo aí os amores) e pela ironia com respeito ao desejo de encontrá-las em seu retorno, visto que anseia por rever o progresso ao invés delas. No poema de Cacaso, a ironia que mais se destaca diz respeito ao discurso do "milagre brasileiro" que era reiterado pela mídia durante a ditadura de 64. Outra ironia significativa relaciona-se à idealização de um Brasil democrático através da referência a Palmares - que recupera o trocadilho (Palmeiras/Palmares) já existente no poema de Oswald. Discorra sobre ambas.

b) Assim como antes tínhamos visto no poema "Meus oito anos" de Oswald uma ruptura com a norma culta da língua, que ocorria no nível da concordância em número e criava o humor dessacralizador do ufanismo romântico e da retórica, agora podemos ver um procedimento semelhante na última estrofe do poema de Cacaso. Discorra sobre ele relacionando-o com outro jogo de palavras - na primeira estrofe da segunda parte do poema - que visa ridicularizar os malabarismos sintáticos dos poetas parnasianos no intuito de manter os padrões de metro e rima exigidos na luta pela perfeição formal.

c) Por fim, ainda com respeito ao humor, é possível percebermos na segunda parte do poema de Cacaso uma auto-ironia do sujeito lírico que possivelmente vise dessacralizar a ideia da genialidade do poeta romântico. Discorra sobre tal questão.

Marciano Lopes

permalink

Intertextualidade e paródia: "laranjas & laranjais" - "Meus oito anos" de Casemiro e Oswald  (Exercícios) escrito em domingo 27 março 2011 11:06

Blog de poetasdobrasil : Literatura Brasileira: Poesia, Intertextualidade e paródia: "laranjas & laranjais" - "Meus oito anos" de Casemiro e Oswald

Oh que saudades que eu tenho
Da aurora de minha vida
Das horas
De minha infância
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da Rua de Santo Antônio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais

Eu tinha doces visões
Da cocaína da infância
Nos banhos de astro-rei
Do quintal de minha ânsia
A cidade progredia
Em roda de minha casa
Que os anos não trazem mais

Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais

("Meus oito anos", Oswald de Andrade)

Blog de poetasdobrasil : Literatura Brasileira: Poesia, Intertextualidade e paródia: "laranjas & laranjais" - "Meus oito anos" de Casemiro e Oswald

EXERCÍCIO - Proposição: análise e interpretação comparadas de "Meus oito anos" deBlog de poetasdobrasil : Literatura Brasileira: Poesia, Intertextualidade e paródia: "laranjas & laranjais" - "Meus oito anos" de Casemiro e Oswald Oswald de Andrade (acima) com "Meus oito anos" de Casemiro de Abreu levando em consideração os aspectos apontados abaixo:

a) Quanto à forma externa: veja como se organiza o poema de Casemiro quanto ao número de estrofes, de versos por estrofes, à métrica e às rimas externas dos versos. Repare que seu poema apresenta equilíbrio formal, pois há regularidade em todos estes níveis estruturais. Já no poema de Oswald, isso não acontece. Além de ser muito menor no tamanho, não há nenhum padrão na organização das estrofes, que tem diferentes tamanhos, metros e ausência de rimas externas organizadas.

b) Quanto ao sujeito lírico e sua relação com o tema da infância perdida: veja que a idealização da infância dourada que vemos no poema de Casemiro é corroída pela ironia no poema de Oswald. Enquanto o sujeito lírico do poema de Casemiro recorda uma infância plenamente feliz, o de Oswald tem a alegria de sua infância maculada pela ânsia (angústia) de não ter mais quase nenhuma natureza no quintal de sua casa, que progressivamente era engolida pelo progresso da metrópole.

c) Quanto à temática da natureza: repare no poema oswaldiano que a natureza tropical brasileira, tão cara ao Romantismo como signo da brasilidade, já está em franco declínio na moderna São Paulo da década de 20 do século passado.

d) Quanto à linguagem: repare que há no estribilho do poema de Oswald (o qual remete ao estribilho do poema de Casemiro) uma ruptura com a norma culta da língua, ruptura que ocorre no nível da concordância em número e cria o humor e a ironia dessacralizadoras do ufanismo romântico - que identifica a grandeza nacional com a beleza e a pujança da natureza brasileira.

Blog de poetasdobrasil : Literatura Brasileira: Poesia, Intertextualidade e paródia: "laranjas & laranjais" - "Meus oito anos" de Casemiro e OswaldPara realizar este estudo de intertextualidade e paródia, leia como apoio o livro Paródia, paráfrase & Cia de Affonso Romano de Sant'Anna (São Paulo: Ática - Série Princípios).

Marciano Lopes

permalink

Mimese e intertextualidade: Camões X Bocage  (Exercícios) escrito em domingo 27 março 2011 07:08

Blog de poetasdobrasil : Literatura Brasileira: Poesia, Mimese e intertextualidade: Camões X Bocage


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

(Luís Vaz de Camões)

Blog de poetasdobrasil : Literatura Brasileira: Poesia, Mimese e intertextualidade: Camões X Bocage

Glosando o mote:
"Morte, Juízo, inferno e Paraíso".

Em que estado, meu bem, por ti me vejo,
Em que estado infeliz, penoso e duro!
Delido o coração de um fogo impuro,
Meus pesados grilhões adoro e beijo.

Quando te logro mais, mais te desejo,
Quando te encontro mais, mais te procuro,
Quando m'os juras mais, menos seguro
Julgo esse doce amor, que adorna o pejo.

Assim passo, assim vivo, assim meus fados
Me desarraigam d'alma a paz e o riso,
Sendo só o meu sustento os meus cuidados.

E de todo apagada a luz do siso,
Esquecem-me ( ai de mim!) por teus agrados
"Morte, Juízo, Inferno e Paraíso".

(Manuel Maria Barbosa du Bocage)

 ________________________

EXERCÍCIO - Proposição: Faça uma análise comparada entre os sonetos de Luís Vaz de Camões (1524-1580) e do poeta árcade Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805), ambos portugueses. Repare que Bocage, ao glosar o mote proposto, se apropria do famoso soneto camoniano "Amor é fogo que arde sem se ver", recriando-o a sua maneira. Durante o trabalho de análise, observe especialmente os seguintes aspectos:

 a) O tema é comum (o sofrimento de amor), mas há uma diferença de postura dos sujeitos líricos com respeito a ele: no primeiro, o sujeito lírico se distancia na 3ª pessoa, buscando definir o amor, objeto de sua composição; no segundo, o sujeito lírico é mais subjetivo, pois não busca definir o amor e sim discorrer sobre seu estado de infelicidade e sofrimento, apresentando-se inscrito em 1ª pessoa no texto.

b) Ambos os sonetos são construídos tendo por base a mesma figura de pensamento: o paradoxo.

c) Em ambos os sonetos, o Amor e a condição de quem ama são representados por metáforas comuns: o fogo e a prisão.

d) Ambos os sonetos apresentam a mesma forma no que diz respeito à métrica e padrão de rimas externas.

 Marciano Lopes

permalink

Um banquete etéreo: o platonismo e a poética clássica  (Classicismo/Neoclassicismo) escrito em sexta 11 março 2011 02:22

Marciano Lopes

Blog de poetasdobrasil : Literatura Brasileira: Poesia, Um banquete etéreo: o platonismo e a poética clássica(...) todo prazer e todo sofrimento possuem uma espécie de cravo com o qual pregam a alma ao corpo, fazendo, assim, com que ela se torne material e passe a julgar a verdade das coisas conforme as indicações do corpo. (PLATÃO, 1987, p. 89 - Fédon)

 A variedade de concepções possíveis sobre o Amor já é encontrável em um texto clássico sobre o asunto em nossa cultura ocidental e latina: O banquete, certamente o mais belo dos diálogos platônicos juntamente com o Fédon, texto em que Platão ensina o caminho socrático para o conhecimento e que é essencial para a compreensão do primeiro.

Em O banquete, filósofos e poetas reunidos em um simpósio discutem sobre a questão amparados - e inspirados - por deliciosas frutas e vinhos, como era de costume. Dentre os discursos, convém lembrar-nos daqueles proferidos por Fedro, Pausânias, Aristófanes e, é claro, Aristóteles. Em comum a eles, está a compreensão do Amor como necessário à civilização, seja por estabelecer laços entre os indivíduos (desde os carnais até os de admiração e companheirismo), seja por levar à contemplação e ao desejo de tudo que é Bom e Belo. Ainda em comum outro aspecto importante - e decorrente: há graus de Amor, encontrando-se no pólo inferior o Amor carnal (pelos corpos) e, no outro, o Amor entre os espíritos, Amor este que não se fixa nas aparências, na matéria imperfeita e mutável.

O primeiro a falar, Fedro, afirma que o primeiro deus a surgir após o Caos foi o Amor e que somente por ele pode um ser dar sua vida por outro, razão pela qual considera este sentimento como sendo uma força civilizatória sem a qual não é possível "nem cidade nem indivíduo produzir grandes e belas obras" (PLATÃO, 1987, p. 13).

Pausânias, que segue discursando, considera que não há um só Amor, mas dois: um que é celestial, outro que é popular. O celestial tem sua origem na deusa Urânia, que "não tem mãe e é filha de Urano" (Idem, p. 15); o popular tem sua origem em Pandêmia, filha de Zeus e de Dione. Ao traçar esta diferença, Pausânias explica a razão do homossexualismo, comum na Grécia Antiga, mais especialmente em Lacedemônia:

(...) o Amor de Afrodite Pandêmia é relmente popular e faz o que lhe ocorre; é a ele que os homens vulgares amam. E amam tais pessoa, primeiramente não menos as mulheres que os jovens, e depois o que neles amam é mais o corpo que a alma (...).  Trata-se com efeito do amor proveniente da deusa que é mais jovem que a outra e que em sua geração participa da fêmea e do macho. O outro porém é o da Urânia, que primeiramente não participa da fêmea mas só do macho - e é este o amor aos jovens (PLATÃO, 1987, p. 15)

Para Pausânias, no amor dirigido aos jovens, o mais velho o faz de forma legítima na medida em que está educando o mais jovem, que, em contrapartida, deve aquiescer ao amante, servindo-lhe em vista da virtude.  E somente este amor será belo "e de muito valor para a cidade e os cidadãos, porque muito esforço ele obriga a fazer pela virtude tanto ao próprio amante como ao amado" (PLATÃO, 1987, p. 18).

Aristófanes, que não centra seu discurso nas virtudes do Amor, mas busca esclarecer sua natureza e vicissitudes, lembra que a Terra era habitada por gigantes que tinham um corpo duplicado com relação ao que possuímos hoje:

 (...) inteiriça era a forma de cada homem, com o dorso redondo, os flancos em círculo; quatro mãos ele tinha, e as pernas o mesmo tanto de mãos, dois rostos sobre um pescoço torneado, semelhantes em tudo; mas a cabeça sobe os dois rostos opostos um ao outro era uma só, e quatro orelhas, dois sexos, e tudo o mais como desses exemplos se poderia supor.  (PLATÃO, 1987, p. 22)

 As vissicitudes surgem quando estes gigantes são divididos ao meio por Zeus devido ao fato de dois deles, Efialtes e Etes, tentarem investir contra os deuses para destroná-los. O resultado deste castigo é que, depois de serem seccionados e terem seus sexos mudados para a frente do corpo de modo a se satisfazerem (antes disso geravam e reproduziam na terra), cada parte busca encontrar a outra que foi perdida. Como os gêneros destes gigantes eram três - masculino, feminino e andrógino - explica-se novamente a homossexualidade.

 (...) todos os homens que são um corte do tipo comum, o que então se chamava andrógino, gostam de mulheres (...) Todas as mulheres que são o corte de uma mulher não dirigem muita sua atenção aos homens, mas antes estão voltadas para as mulheres e as amiguinhas provêm deste tipo. E todos os que são corte de um macho perseguem o macho (...) Dizem alguns, é verdade, que eles são despudorados, mas estão mentindo; pois não é por despudor que fazem isso, mas por audácia, coragem e masculinidade, porque acolhem o que lhes é semelhante. Uma prova disto é que, uma vez amadurecidos, são os únicos que chegam a ser homens para a política.  (PLATÃO, 1987, p. 24)

Embora Aristófanes satirize os homossesuais na sua identificação aos políticos, na sequência não deixa de liricamente elogiar o amor espiritual, seja entre quem for, ao afirmar que "os que continuam um com o outro pela vida afora são estes, os quais nem saberia dizer o que querem que lhes venha da parte de um ao outro. A ninguém com efeito pareceria que se trata de união sexual" (PLATÃO, 1987, p. 24-25). Vale a pena transcrever a passagem que segue, apesar de longa, por sua beleza:

 Se diante deles, deitados no mesmo leito,  surgisse Hefesto e com seus instrumentos lhes perguntasse: Que é que quereis, ó homens, ter um do outro?, e se, diante do seu embaraço, de novo lhes perguntasse: Porventura é isso que desejais, ficardes no mesmo lugar o mais possível um para o outro, de modo que nem de noite nem de dia vos separeis um do outro? Pois se é issso que desejais, quero fundir-vos e forjar-vos numa mesma pessoa, de modo que de dois vos tornei um só e, enquanto viverdes, como uma só pessoa, possais viver ambos em comum, e depois que morrerdes, lá no Hades, em vez de dois ser um só, mortos os dois numa morte comum (...). Depois de ouvir essas palavras, sabemos que nem um só diria que não, ou demonstraria querer outra coisa, mas simplesmente pensaria ter ouvido o que há muito estava desejando, sim, unir-se e confundir-se com o amado e de dois ficarem um só. O motivo disso é que nossas antiga natureza era assim e nós éramos um todo; é portanto ao desejo e procura do todo que se dá o nome de amor. (PLATÃO, 1987, p. 25)

 Por fim, depois da fala do sofista Agatão, que em tudo elogia o Amor, temos a explanação de Sócrates que, através do raciocínio dialético e da alegoria, desconstrói o discurso do sofista. Seu raciocício segue a seguinte lógica: o Amor existe para aquilo que não possui, pois senão não o desejaria. Em outras palavras: o Amor só pode desejar aquilo que não tem, caso contrário não seria necessário desejar esta coisa. Aceito este raciocínio, conduz Agatão - os debatedores e demais ouvintes - a concluir que o Amor é carece do que é belo e bom, posto que deseja a estas coisas. Por tal razão, o Amor não é belo nem rico, mas pobre e carente.  Para ilustrar esta ideia, narra o mito que afirma ter ouvido de uma sacerdotisa chamada Diotima e que apresenta o Amor como filho do deus Recurso e da mortal Pobreza, tendo sido gerado no dia de nascimento de Afrodite. Por assim ter ocorrido, conclui:

 Eis porque ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela. E por ser filho de Recurso e da Pobreza  foi esta a condição em que ele ficou. Primeiramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos (...) nem imortal é a sua natureza nem mortal, e no mesmo dia ora ele germina e vive, quando enriquece; ora morre e de novo ressuscita, graças à natureza do pai (PLATÃO, 1987, p. 35).

 Como se vê, a natureza do Amor é contraditória, senão paradoxal. Não sendo imortal, sua natureza mortal busca a imortalidade. Ainda mais que em nossa realidade feita de simulacros não conhecemos a Verdade e muito menos o Belo, só existentes em sua plenitude no mundo da Ideias, mundo onde se encontram as essências imutáveis  - porém inalcançáveis aos sentidos  humanos. Por tal razão, o Amor não pode se contentar com a satisfação material e com a contemplação dos corpos, por mais belos que sejam, pois além de serem imperfeitos e se deteriorarem com o passar do tempo, eles constituem uma prisão para a alma, tornando-a incapaz de alcançar a luz da sabedoria. Daí o papel da filosofia: ser o fim do processo de ascese (purificação) visando a libertação da alma e a recordação das reminiscências, lembranças das essências conhecidas pelos espíritos no princípio, antes de se fixarem em algum corpo.

 - Vou dizer-te. É uma coisa bem conhecida dos amigos do saber, que sua alma, quando foi tomada sob os cuidados da filosofia, se encontrava completamente acorrentada a um corpo e como que colada a ele; que o corpo constituía para a alma uma espécie de prisão, através da qual ela devia forçosamente encarar as realidades, ao invés de fazê-lo por seus próprios meios e através de si mesma; que enfim, ela estava submersa numa ignorância absoluta. E o que é maravilhoso nesta prisão, a filosofia bem o percebeu, é que ela é obra do desejo, e quem concorre para apertar ainda mais as suas cadeias é a própria pessoa! (...) uma vez tomadas sob seus cuidados as almas cujas condições são estas, a filosofia entra com doçura a explicar-lhes as suas razões, a libertá-las, mostrando-lhes para isso de quantas ilusões está inçado o estudo que é feito pelo ouvido e pelos sentidos (PLATÃO, Fédon. 1987, p. 88 - grifos de minha autoria).

 Esta visão platônica a respeito do Amor - no qual os desejos carnais devem ser sublimados em última instância pelo pensamento - vai se consolidar como hegemônica não apenas na arte clássica como em toda lírica ocidental até quase os nossos dias. Na literatura neo-clássica, encontramos inúmeros sonetos que são melhor compreendidos se lidos levando-se tais questões em consideração.  Um exemplo são os famosos sonetos  "Amor é fogo que arde e não se vê", de Camões, e aquele em que Bocage glosa o mote "Morte, Juízo, inferno e Paraíso" (para vê-los, clique aqui). Neles encontramos os topoi do Amor como sentimento paradoxal e do corpo como prisão para a alma; prisão absurdamente desejada pelo próprio amante, que concorre para apertar ainda mais as suas próprias cadeias, conforme podemos ler no excerto, acima, do Fédon, de Platão.

Outros exemplos da permanência do topos do Amor como sentimento paradoxal ao longo dos séculos até a contemporaneidade (apesar de todos os vanguardismos já ocorridos) são os  poemas "Soneto do maior amor", de Vinícius de Moraes, e as letras da canções "Catavento e girassol" (Guinga e Aldir Blanc), "Ela é dançarina"* (Chico Buarque) e "O quereres", de Caetano Veloso - todos estruturados com base nas figuras de pensamento da antítese e do paradoxo. No caso do soneto de Vinícius e da canção de Caetano, note-se ainda o uso do decassílabo.

 SONETO DO MAIOR AMOR

                                  Vinícius de Moraes

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer - e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

O QUERERES

                             Caetano Veloso

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alta, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor


Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim

Reparem que a concepção platônica do Amor se encontra em perfeita sintonia com os valores clássicos. A racionalidade e a busca do equilíbrio que norteiam a estética clássica e neo-clássica decorrem da visão platônica de mundo, em que a felicidade somente encontra guarida na ascese, na purificação do espírito (que deve se desvencilhar dos desejos e necessidades terrenas) através da progressiva elevação do pensamento rumo ao mundo das Ideias. Por tal razão é que o sujeito lírico do soneto abaixo, também de Camões, busca transformar-se na mulher amada através de muito pensar. Se isso conseguir, terá atingido um grau muito elevado de Amor, grau em que terá compreendido que a beleza dela não está no corpo e sim na alma - sendo esta alcançável somente pelo seu pensamento, posto que os sentidos limitam a percepção da Ideia. Entretanto, embora busque realizar o Amor em si mesmo ao imaginar "esta linda e pura semideia", sua natureza contraditória permance afligindo-o, pois este Amor "como a matéria simples busca a forma", que já vimos ser imperfeita, mero simulacro segundo o platonismo.

Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minh'alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assi co'a alma minha se conforma,

está no pensamento como ideia:
o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.

(Soneto 20 - Luís de Camões)

Esta compreensão do Amor em que todo erotismo deve ser sublimado leva ao decoro clássico com respeito à representação do feminino. Nada de palavras chulas, referências às zonas erógenas do baixo corporal e, principalmente, referências explícitas ao ato sexual.  Para tanto é necessário que o poeta saia fora do campo da poesia socialmente reconhecida como nobre e se aventure pela poesia popular, socialmente desqualificada, restrita aos lugares socialmente proscritos, tais como as tabernas e prostíbulos. Isto torna-se muito evidente quando estudamos a poesia de Gregório de Matos. Para a representação do Amor elevado e da mulher branca, utiliza o soneto e segue à risca os preceitos de decoro; para a representação do Amor carnal, nos seus mais baixos instintos, assim como das mulheres de cor, socialmente desqualificadas e desfrutáveis (entre as quais se destacam as mulatas e negras), utiliza a poesia de escárnio e maldizer, de tradição popular (sobre esta questão, veja neste blog).

Na poesia árcade, a situação não é diversa. Nela, o Amor é tratado com leveza e convencionalismo mesmo quando os sentimentos são por demais passionais ou dolorosos, como é o caso do sentimento de luto - tão comum nos sonetos de Cláudio Manuel da Costa, nos rondós que compõem o livro Gláucia, de Silva Alvarenga, assim como nas liras (caso da Lira 77) em que Gonzaga escreveu no exílio. Talvez o momento mais erótico e belo da nossa lírica árcade se encontre - ironicamente - em um poema épico: O Uraguai, de Basílio da Gama Blog de poetasdobrasil : Literatura Brasileira: Poesia, Um banquete etéreo: o platonismo e a poética clássica(1741-1795). A passagem, para quem conhece, é óbvia: a morte de Lindóia. Mas a razão para que tal erotismo tenha se tornado aceitável no poema provavelmente é a mesma que possibilitava a Gregório tratar o Amor em sua carnalidade quando tratava da mulher de cor: Lindóia não é branca, mas índia, um ser que, na época de escritura do poema, nem era ainda reconhecido como tendo uma alma pela Igreja Católica - encontrando-se, portanto, excluído da humanidade e da necessidade de maior decoro em seu tratamento. Apesar de manter o decoro, o erotismo está presente no nível simbólico das imagens, destacando-se o fato de que ela morre picada por uma serpente, figura que simboliza não somente o Mal, mas também o órgão fálico, que aliás  verte seu sémen (do grego: sperma - "semente"), simbolizado pelo "lívido veneno". Ainda: o mesmo caráter simbólico da serpente também está na flecha, que é arremessada por seu irmão no intuito de matar a víbora.

Açouta o campo coa ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! No frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.

(O Uruguai, Basílio da Gama)

Referência:

PLATÃO. Diálogos - O banquete, Fédon, Sofista, Político. Tradução e notas de José Cavalcante de Souza et alii. 4 ed. São Paulo: Nova Fronteira, 1987. (Coleção Os pensadores)

* NOTA: Em "Ela é dançarina", mais forte do que o motivo platônico do amor como contradição é o aproveitamento da lenda do "feitiço de Áquila".

permalink
|

Abrir a barra
Fechar a barra

Precisa estar conectado para enviar uma mensagem para poetasdobrasil

Precisa estar conectado para adicionar poetasdobrasil para os seus amigos

 
Criar um blog