“Sonhando” com Álvares de Azevedo  (Romantismo) escrito em domingo 27 setembro 2009 09:17

Ambientação, Atmosfera, Álvares de Azevedo, Edgar Allan Poe, Mal do século, Narrativa de efeito final, Romantismo

 O poema "Sonhando" pode ser considerado como elaborado segundo os princípios da narrativa de unidade de efeito final. Em sua construção, tanto a ambientação do espaço como a caracterização da donzela são feitas de modo a criar uma atmosfera de morbidez, fantasmagoria e sonho que vão se intensificando até o clímax, momento em que se revela a morte da jovem, que é levada pelas águas do mar definitivamente para longe do poeta.

EXERCÍCIO: faça uma análise e interpretação

a)      da caracterização da donzela e
b)      da ambientação do espaço

tendo como referencial teóico o ensaio “A filosofia da composição”, de Edgar Allan Poe, de modo a demonstrar as afirmações feitas acima.

AMBIENTAÇÃO: "Por ambientação, entenderíamos o conjunto de processos conhecidos ou possíveis, destinados a provocar na narrativa, a noção de um determinado ambiente. Para a aferição do espaço, levamos a nossa experiência do mundo; para ajuizar sobre a ambientação, onde transparecem os recursos expressivos do autor, impõe-se um certo conhecimento da arte narrativa" (LINS apud DIMAS, 1987, p. 20).

O conceito acima, de Osman Lins, embora criado com base na análise do espaço em narrativas, muito bem pode ser aplicado à caracterização do espaço em poemas, mesmo que não sejam narrativos. Na lírica, assim como na prosa, o espaço pode ser ambientado de modo a apresentar uma dimensão simbólica, ou seja, uma significação conotativa, metafórica, capaz de expressar os sentimentos do eu-lírico ou criar uma atmosfera para o texto.

Blog de poetasdobrasil : Literatura Brasileira: Poesia, “Sonhando” com Álvares de Azevedo
SONHANDO
                                Álvares de Azevedo

Hier, la nuit d’été, que nous pretait sés voiles,
Était digne de toi, tant elle avait d’étoilles!
(Victor Hugo)

Na praia deserta que a lua branqueia,
Que mimo! Que rosa! Que filha de Deus!
Tão pálida – ao vê-la meu ser devaneia,
Sufoco nos lábios os hálitos meus!

Não corras na areia,
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

A praia é tão longa! E a onda bravia
As roupas de gaza te molha de escuma;
De noite – aos serenos – a areia é tão fria,
Tão úmido o vento que os ares perfuma!

Es tão doentia!
Não corras assim!
Donzela, onde vais
Tem pena de mim!

A
 brisa teus negros cabelos soltou,
O orvalho da face te esfria o suor;
Teus seios palpitam – a brisa os roçou
Beijou-os, suspira, desmaia de amor!

Teu pé tropeçou...
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

E o pálido mimo da minha paixão
Num longo soluço tremeu e parou;
Sentou-se na praia sozinha no chão
A mão regelada no colo pousou!

Que tens coração,
Que tremes assim?
Cansaste, donzela?
Tem pena de mim!

Deitou-se na areia que a vaga molhou,
Imóvel e branca na praia dormia;
Mas nem os seus olhos o sono fechou
E nem o seu colo de neve tremia.

O seio gelou?...
Não durmas assim!
Ó pálida fria,
Tem pena de mim!


Dormia – na fronte que níveo suar!
Que mão regelada no lânguido peito!
Não era mais alvo seu leito do mar,
Não mais frio seu gélido leito!

Nem um ressonar!...
Não durmas assim!
Ó pálida fria,
Tem pena de mim!

Aqui no meu peito vem antes sonhar
Nos longos suspiros do meu coração:
Eu quero em meus lábios teu seio aquentar,
Teu colo, essas faces, e a gélida mão...

Não durmas no mar!
Não durmas assim,
Estatua sem vida,
Tem pena de mim!

E a vaga crescia seu corpo banhando,
As cândidas formas movendo de leve!
E eu vi-a suave nas águas boiando
Com soltos cabelos nas roupas de neve!

Nas vagas sonhando
Não durmas assim
Donzela, onde vais
Tens pena de mim!

E a imagem da virgem nas águas do mar
Brilhava tão branca no límpido véu!
Nem mais transparente luzia o luar
No ambiente sem nuvens da noite do céu!

Nas águas do mar
Não durmas assim!
Não morras, donzela
Espera por mim!

_________________________________________________
Referência: DIMAS, Antonio. Espaço e romance. 2 ed. São Paulo: Ática, 1987.

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2 comentário(s)

  • poesiainfantojuvenil Seg 05 Out 2009 03:30
    Professor, vc não comentou mais no nosso Blog rsrs...Qdo der, dê uma olhadinha até mesmo pra ajudar a nossa equipe na continuidade do trabalho!
    Boa semana

    Luana

  • poesiarala Sex 02 Out 2009 22:13
    Marciano, fizemos umas mudanças no nosso blog. Acrescentamos os nomes na descrição e mudamos um pouco o último texto postado, o qual explica o porque de poesia rala.. quando puder, dê uma olhada, obrigada!


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